Louco, poeta e profeta à procura de um caminho, assim cada manhã de minha vida, trago do sonho outro sonho...e vou olhando as estrelas no céu e sentindo o vento.
“A maior dor do vento é não ser Colorido” (Mario Quintana)
O vento traçava seu movim[inv]ento no ar do quarto. Fazia calor e os corpos sua[ma]vam.
Dois corpos em colo[do]res. O movim[v]ento das cores. Vento se fazendo cor. Se fazendo odor. Criando uma dança de des-canção nos corpos cancionais – [instâncias de insubstâncias].
Cantiga de [in]vento. Nas funduras do go[lambu]zo[u] os prazeres se fazem presentidade. O abraço de uma semana se demora no corpo sua[ama]do. O gemido do prazer se prolonga ainda no assopro do [em]canto.
Devo[o]rando os corpos seguem sem palavras.
Ausência sem presença de palavras. Cores por todos os lados.
Passarando feito pássaro passam os dias se empurrando [cor]po adentro.
Palavras que falam através dos corpos – do tato, do beijo, do abraço, da penetração, do gozo.
O vento traça movimentos dentro do quarto.
Dentro do quarto dois corpos se movem com o vento.
“Há um nome Levado no Vento. Palavra. Pequeno rumor entre a eternidade e [o momento.” (Cecília Meireles)
. . .
Es[voa]çando no tempo vai o seu nome. No tempo de minha memória vibrátil. Assim pensava o menino dos botões ao lembrar dos catagiros da menina. Menina que com um corpo de liberdade e de res[ins]piração – “só enquanto eu respirar..” – levou o menino ao gozo muitas vezes. Corpo onde o tato fez caminho, onda a língua lambu[Go]zou de prazer. Dança dos corpos no vento do amor. Nas funduras e alturas da alma o gosto de chocolate go[la]tejando num [re]puxo de brincar abrindo-se ao êxtase e ao sentir a beleza escondida nos pequenos gestos da pele ao capturar fotogramas musicais das gotas de suor. . . . Na escuta da reza a saudade e a vontade de ver-te a prese[ausência]nça-au[presença]sência de habitar no corpo desejante da menina do catagozos. . . . Cantigas de roda o vento me traz. Mosaico de sons e de palavras que se formam na tempestade que aduba os jardins. A alegria de florir na saliva da menina. A alegria de abrir-se nas pernas da menina. A alegria de partilhar nos fluidos corporais poemas sem palavras sem sons sem vozes poemas de silên[ausênciapresença]cio. . . . No bolso da alma e do corpo botões. No bolso da calça uma bicicleta que leva ao vento recados e palavras sem[com]sentido através dos botões do [in]vento. Voam[am] as raízes da árvore do menino. Entrela[bra]çam-se nas asas de um sonho de estranhe[bonite]za vivido por essas crianças.
“Na falta de luz pegue uma vela, lápis, papel e percorre-os”. Foi o que ela disse e foi o que ele fez. A noite havia se pronunciado há tempos, assim como a chuva trazida pelos ventos. Dentro de casa, na penumbra das velas, ele havia permanecido deitado, escutando os sons da chuva e do vento esperando a luz voltar. Mas ela não voltaria tão cedo.
O sono não vinha, ainda era cedo o relógio do celular marcava 19 horas, sem luz o que fazer? Vagueou pelos cômodos da casa silenciosa a procura de algo que o entretece. A bateria do notebook durou apenas uma hora, deixando o filme que assistia pela metade (Os amantes do circulo polar). A bateria do celular estava no fim, ele apenas ligava de tempos em tempos para ver a hora. Caminhou até a porta, abriu-a e deixou o ar da noite chuvosa entrar. Ficou um tempo a observar as formigas que subiam pelo cabo da televisão e da internet.
Nesse momento de distração o sopro dela entrou. Percorre-os. Percorrer a vela, o lápis e o papel. Assim ele ficou: com uma vela acessa a sua frente, um lápis em sua mão e seu pequeno caderno sob a mesa. Não sabia como percorrer. Se ela tivesse dito como fazê-lo.
Meditou sobre a vela, sobre a luz que ilumina e viaja tão rápido, mais rápido que o vento. Lembrou-se de sua infância, das muitas velas que iluminaram a casa onde passará sua adolescência – uma cidade do interior onde a luz elétrica não havia chegado. Deixou a memória aberta as imagens: músicas, filmes, sensações, o rosto dela iluminado por uma vela. Fazia pouco tempo que tinha visto aquela imagem: ela e a vela. Fazia pouco tempo que o lápis percorria páginas e páginas falando sobre a paixão intempestiva de um menino do catagiro e a menina do botão. Para a luz e para o vento isso era apenas milésimos de segundo, mas para ele era muito tempo.
Na mente mil e uma idéias para filmes, documentários, músicas, livros, mas o papel em sua frente continuava branco como a neve. O papel aceita tudo o que se escreve nele, como o corpo aceita o toque com desejos de paixão. Pensando no corpo dela percorreu a folha com o lápis, assim como suas mãos percorreram o corpo dela.
Toque. Rápido. Lento. Carinhoso. Desejoso. Amoroso. Com tesão. Com surpresa. Descobrindo e mapeando. Tecendo e cosendo novidades. A pela macia das coxas. As mãos que acariciavam o corpo como um jardineiro acaricia a terra preparando o jardim de flores amarelas e laranjas. Um jardim de prazer.
Umbigo. Seios. Bunda. Braços. Cabelos. Rosto. Cada toque repassado vagarosamente na folha, construindo uma gramática corporal, uma linguagem entre mãos e corpo, a cartografia corporal deles. Toque. Lábios. Sabor que encanta e canta. Que vicia. A língua que percorre o corpo como as mãos, sentindo o gosto doce do desejo. Se detêm aqui e acolá – nos seios fonte de ternura, amor e paixão – nas mãos que acariciam o corpo alheio. A língua, as mãos traçam caminhos corporais, como o lápis cria linhas por onde passa.
Corpo território sagrado. Papel palavra que se encarna no corpo – corpo encarnado de poesia, de amores, de utopia, emanações do corpo vibrátil, de bonitezas de um jardim colorido, do devir de um novo amanhecer. Amanhecer na cartografia corporal, nos beijos e suspiros de paixão – os olhos cansados que não se fecham - a vela em sua frente dança construindo figuras no papel agora rabiscado e colorido.
A vela chega ao final lentamente e o papel – jardim colorido dos desejos – tessitura/tecitura única: paixão e toque – sabor e vento – flores e suor – beijos e palavras- suspiros e abraços. O papel antes branco agora vive com memórias do menino dos botões e da menina do cataventos.
O lápis adormece ao lado da folha reinventada moldados pela luz fraca da vela que se apaga lentamente dando seus últimos beijos no colorido do jardim dos amantes, dando passagem aos afetos.
P.S: Depois de devorar – ou ter sido devorado, por estas palavras chega em minhas mãos e ao meu corpo um livro – há tempos esquecido na prateleira e ainda não lido completamente – da Suely Rolnik “Cartografia Sentimental”, ao ler me deparo com o conceito de Cartógrafo Antropófago, onde o mesmo da língua para afetos que pedem passagem.
“Como toda cartografia, ela foi se fazendo ao mesmo tempo que certos afetos foram sendo revisitados (ou visitados pela primeira vez) e que um território foi se compondo para eles...” (Do livro)
(Imagem de Andre Neves - http://confabulandoimagens.blogspot.com)
Olho para fora pela janela de minha alma. Vejo os jardins e as árvores floridas. Melodias e vozes saem dos botões de flor ao se abrirem. O mundo é uma melodia harmônica. O vento tece teias ligando notas e arranjos num ser intempestivo. A maioria das notas se perdem aos ouvidos humanos, o ar é poluído por sons de carros, de gente falando, de músicas e sons produzidos por batidas e pisares. O som do mundo, da natureza se junta ao som produzido pelos homens e mulheres no seu dia a dia. É preciso escutar com outros olhos, abrir os ouvidos aos sons e o corpo a música.
No pulsar do coração o menino escuta o que se passa lá fora, pela janela entram os sons do cotidiano: um cachorro latindo, passarinhos cantando, uma dona de casa lavando a casa, um carro passando, uma ambulância, o vento nas árvores, as abelhas zunindo, as flores caindo, os passo no chão. Tudo é música ao ouvido. O menino escuta longe. Escuta o mar, escuta a areia, escuta a chuva molhando a terra e as flores se abrindo. Mais longe ainda escuta o coração da menina.
O menino escuta isso por que tem um botão na orelha, e do lado o catavento a girar trás os sons propagados pelo vento. No jardim do menino nenhum som se perde, as melodias e as vozes são captadas pelos quatro buracos do botão, juntas se transformam na música deles – do botão e do catavento, colorindo assim as imagens e os movimentos antes cinzas de um mundo que não ouve com os olhos.
O vento leva as bolhas de sabão abrindo as flores ao passar e regando as sementes no chão. No intempestivo que vem um devir de boniteza se espalha pelo mundo fazendo sorrir um menino com um botão e uma menina com um catavento.
“Os nossos corpos são finas camadas de carne que recobrem um poema. Somos poemas encarnados.” (Rubem Alves)
O menino sentado em cima da árvore observa o tempo sendo soprado pelos ventos girando seu catavento. Observa o tempo passar sem fixar-se muito em nada. Sente-se só com seu catavento e suas palavras encarnadas. Sem perceber uma menina passa por perto dele. A menina vem cantando e sorrindo, como se a música fosse seu corpo sendo soprado pelo vento, cri(ando) e rein(venta)ndo formas, cores, aromas e sabores. Vem caminhando com seus botões – nas orelhas, nas roupas, no cabelo, nos tênis, na sua sacola interligada com fios.
O vento traz ao menino o sopro de um a(braço) quente e aconchegante. Ele olha em volta tentando descobrir de onde vem aquele calor gostoso que o envolve. Seus olhos são acolhidos carinhosamente por um afago dos olhos da menina. O olhar o envolve e o desnuda mostrando seus sonhos e suas utopias. A menina dos botões apenas sorri para ele e sai no seu in(vento) de novos sopros e na teimosia de novos vôos. O menino pisca e seus olhos se enchem da boniteza da vida.
O menino permanece sentado em cima da árvore sem reação depois do olhar que o desvelou e mostrou a ele novos sonhos possíveis. Sem saber o que fazia desceu da árvore e começou a caminhar atrás dos botões deixados pela menina. Achava os botões aqui e ali ficavam caídos - perdidos no meio da grama, mas não enxergava a menina que os largava. Assim de botão em botão ele continuo a caminhar.
Quando se quer achar algo não se acha, é assim que funciona com os botões quando queremos os pregar em nossas roupas. Sempre está faltando um em nossas camisas, blusas, calças. Quando queremos encontrar não encontramos. Foi assim que se seguiu com o menino do catavento e das palavras encarnadas. À medida que achava os botões e procurava a menina que os largava o tempo ia passando. À medida que caminhava mais botões ele achava. Depois de certo tempo decidiu que iria distribuir esses botões, dar a outras pessoas que haviam perdido, ou faltava um botão, ou para enfeitar os cabelos, as orelhas, as roupas, criando penduricalhos com botões, roupas, sacolas, reinventando novas formas de utilizá-los. Mas a menina dos botões não tornou a ver.
O menino se tornou um catador de botões, e um distribuidor de botões perdidos. Deu-se conta em seu caminhar que muitas coisas se perdem quando os olhos piscam. Deve ter acontecido isso com a menina dos botões, seus olhos piscaram depois de à ver, e ela desapareceu no nada. Muitas coisas ele achava e distribuía além dos botões: livros, palavras, abraços, cheiros, flores, sorrisos, beijos, poesias, guarda-chuvas, ...
Quando cansada de caminhar, permanecia por um certo tempo em cima das árvores, pensando que assim ela apareceria sem o ver. Mas as coisas não acontecem assim. Nos dias que passavam cheios de coisas perdidas ele encontrou um poema, o pedaço de uma música cantada que o vento soprou:
“São Longuinho, São Longuinho
Me fale me dê um sinal!
São Longuinho, São Longuinho
Pra onde foi?”
Aos poucos a música se tornou um mantra, e os mantras são coisas bonitas que se perdem na voz e nos sentimentos, assim como o corpo se transforma em palavra e em poema encarnado. São Longuinho deve ter atendido o seu pedido, depois de tanto cantar num dia onde as nuvens estava cinzas e o corpo necessitava de um abraço ele sentiu o perfume dela novamente. Mas como muitas vezes havia acontecido achou apenas que fosse sua imaginação. Sentado em cima de uma árvore ele permaneceu. Quando ela o chama:
“Ei! Ei você ai em cima! Se por acaso tem um verso perdido, ou quem sabe pendente para preencher as estrofes da degustação de novos instantes?”
Os olhos do menino piscaram, quem sabe fosse imaginação. Mas não, quem perguntava era a menina dos botões. Radiante em beleza e poesia com os botões pendurados no corpo, era ela sem dúvida. “Ei menino. Ando a procura de uns versos perdidos, me contaram que por esses lados andava alguém que catava coisas perdidas, pelo jeito é você né?”
A menina olhava para ele com ternura desvelando nela mesma sonhos possíveis e utopias reais. O menino se olhou e percebeu o quão estranho estava, não desnudo como da outra vez, mas cheio de coisas presas em suas roupas: botões, livros, poemas, pedaços de papéis, flores, garrafas, fitas, ... e seu catavento. “Que verso você procura?” disse ele descendo da árvore.
“Perdi um verso quando encontrei um menino certa vez, na verdade compartilhei com ele no olhar, mas não o encontro, nem o verso nem o menino. O verso era mais ou menos assim ‘é muito gostoso esse nosso aconchego ...’ e não me lembro o resto.”
O menino a olhou dentro do olho dentro e repetiu “é muito gostoso, esse nosso aconchego, esse nosso chamego, essa nossa alegria de ser feliz...” e caminhando em direção a menina dos botões a abraçou com o sopro e o vento de muitas caminhadas e muitos dias.
(Samba da Impermanência – Richard Serraria e Marcelo Cougo)
“ Se nem a vida dura a vida inteira Por que o amor haveria de durar Se sou aquilo que vejo nos teus olhos Em teus olhos aprendi a enxergar Naquele tempo e ainda hoje Dentro da noite Noite adentro amei a nossa falta mesmo de amar Compreendendo o que duvido lembro que vivo Vivo que amo em teus olhos aprendi a duvidar... Se nem a vida dura a vida inteira por que o amor haveria de durar Se sou aquilo que vejo nos teus olhos Em teus olhos aprendi a enxergar. Então se fez chegada a hora dos olhos teus saírem de casa Ferido e vivido olhar Talvez passasse em brancas nuvens o canto dos teus olhos sem véu Muro com caco de vidro furando a barriga do céu. Malandro é o parafuso que já nasce de cabelo repartido! ”