13 Novembro 2009

Úmidos de imaginação






“Ou o tempo é invenção ou é nada...” (Bérgson)

Iniciei esse texto escrevendo dentro do ônibus, aproveitando à longa jornada no caos que é o trânsito de São Paulo. Termino-o agora à noite.

Ao voltar e reler o texto, e começar a modificá-lo me lembrei das palavras de Bérgson sobre a inventividade que devemos ter. [Des](Re)Construir o tempo foi o que os atores, diretor e equipe que construíram a peça “O capitão e a Sereia”, a Trupe Clowns de Shakespeare, inspirado na obra de André Neves;

Ao sair da peça iniciei a escrever e a pensar e logo me lembrei da mensagem de André Neves dizendo que “ficou guardado muita felicidade e quando fecho os olhos parece que estou assistindo”. Levei no meu corpo e nas minhas memórias as imagens de um espetáculo que vez olhar mais, de escutar com outros olhos.

É difícil traduzir com palavras o que foi vivenciada no espetáculo “O Capitão e a Sereia” uma proposta desafiadora eu diria. Desafiador, encantador e que joga o público para dentro do espetáculo, para dentro da história. Durante o espetáculo muitas coisas me chamaram a atenção, desde o momento inicial até o final. A afetividade, a relação da trupe com o público antes do espetáculo, no espetáculo e depois dele.

Me senti acolhido por todos e todas. Na ida para o teatro lia Neil Gaiman que dizia que "histórias são, de um modo ou de outro, espelhos. Nós a usamos para explicar como funciona ou não o mundo ..." com certeza a proposta da trupe de romper fronteiras do teatro, da estética, trazendo para junto do palco um pouco da realidade, das angústia, dos medos, dos sonhos, da vida num mundo cheio de cartografias e de ondas que nos carregam para mar adentro.

A idéia cons(des)truída e as várias narrativas dentro do espetáculo instigavam ao público uma reflexão, instigavam a se jogar dentro do mar, ficar “úmido” de história e a se perder junto com o Capitão Marinho.

No livro de André Neves Marinho é um contador de histórias, mas na peça, ele não se faz presente na narrativa se faz essência e presença nos atores e no público. Contadores de histórias esplendidos os atores nos conduziram por caminhos secos e molhados. Suas falas traziam poesias, encantos, cantos de sereias que entram em nossos ouvidos e corações. São músicas "bonitinhas" (como diziam os atores) que nos remetem a imaginários e fantasias.

A peça é uma história contada com vida, com imagens e com realidade (não entro no mérito de falar do figurino, da cenografia, da iluminação, das músicas não sou qualificado para isso mas todos os elementos se compõe como a água salgada do mar). Tudo é feito com vida. Tudo é feito com paixão e nos faz mergulhar de olhos fechados na tecetura de uma mar “úmido” de um teatro vivo e que vive dentro de nós.

Silenciar com a música e fechar os olhos na escuridão pensando nos mares existentes em nós. Os adultos deveriam assistir a essa peça é deixarem se cativar por histórias contadas com o corpo e os sentimentos. Precisamos mais desse resgate, precisamos jogar o anzol e trazer das profundezas do mar alguns sentimentos afundados, trazer a coragem de ousar de construir e de contar histórias com palavras, imagens, sons e com o corpo.

Sai da peça com a certeza de que é urgente semearmos e plantarmos a imaginação. Fiquei muito feliz ao ser presenteado no final do espetáculo a observar os desenhos originais do livro do André Neves (fotos ilustrando esse texto).

Agradeço a Trupe Tropega, Mas não Escorrega, ao André Neves, aos atores do Clowns de Shakespeare (Camille, César, Marco e Renata) a experiência que me proporcionaram nessa tarde quente de sexta feira longe de casa assim como o Marinho ficou por tanto tempo. Tempo para reinvenção, para criação, para imaginação.

Elisandro Rodrigues

03 Novembro 2009

Ventania de cores.



“A maior dor do vento é não ser Colorido” (Mario Quintana)

O vento traçava seu movim[inv]ento no ar do quarto. Fazia calor e os corpos sua[ma]vam.

Dois corpos em colo[do]res. O movim[v]ento das cores. Vento se fazendo cor. Se fazendo odor. Criando uma dança de des-canção nos corpos cancionais – [instâncias de insubstâncias].

Cantiga de [in]vento. Nas funduras do go[lambu]zo[u] os prazeres se fazem presentidade. O abraço de uma semana se demora no corpo sua[ama]do. O gemido do prazer se prolonga ainda no assopro do [em]canto.

Devo[o]rando os corpos seguem sem palavras.

Ausência sem presença de palavras. Cores por todos os lados.

Passarando feito pássaro passam os dias se empurrando [cor]po adentro.

Palavras que falam através dos corpos – do tato, do beijo, do abraço, da penetração, do gozo.

O vento traça movimentos dentro do quarto.

Dentro do quarto dois corpos se movem com o vento.

No vento o sussurro do prazer.

Prazer de idas e vindas nas colores.

Ventania de cores.


Elisandro Rodrigues

17 Outubro 2009

Ame Ela




“Há um nome Levado no Vento. Palavra. Pequeno rumor entre a eternidade e [o momento.” (Cecília Meireles)
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Es[voa]çando no tempo vai o seu nome. No tempo de minha memória vibrátil. Assim pensava o menino dos botões ao lembrar dos catagiros da menina. Menina que com um corpo de liberdade e de res[ins]piração – “só enquanto eu respirar..” – levou o menino ao gozo muitas vezes. Corpo onde o tato fez caminho, onda a língua lambu[Go]zou de prazer. Dança dos corpos no vento do amor. Nas funduras e alturas da alma o gosto de chocolate go[la]tejando num [re]puxo de brincar abrindo-se ao êxtase e ao sentir a beleza escondida nos pequenos gestos da pele ao capturar fotogramas musicais das gotas de suor.
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Na escuta da reza a saudade e a vontade de ver-te a prese[ausência]nça-au[presença]sência de habitar no corpo desejante da menina do catagozos.
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Cantigas de roda o vento me traz. Mosaico de sons e de palavras que se formam na tempestade que aduba os jardins. A alegria de florir na saliva da menina. A alegria de abrir-se nas pernas da menina. A alegria de partilhar nos fluidos corporais poemas sem palavras sem sons sem vozes poemas de silên[ausênciapresença]cio.
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No bolso da alma e do corpo botões. No bolso da calça uma bicicleta que leva ao vento recados e palavras sem[com]sentido através dos botões do [in]vento. Voam[am] as raízes da árvore do menino. Entrela[bra]çam-se nas asas de um sonho de estranhe[bonite]za vivido por essas crianças.


Elisandro Rodrigues

06 Outubro 2009

Dar língua para afetos que pedem passagem.


“Na falta de luz pegue uma vela, lápis, papel e percorre-os”. Foi o que ela disse e foi o que ele fez. A noite havia se pronunciado há tempos, assim como a chuva trazida pelos ventos. Dentro de casa, na penumbra das velas, ele havia permanecido deitado, escutando os sons da chuva e do vento esperando a luz voltar. Mas ela não voltaria tão cedo.

O sono não vinha, ainda era cedo o relógio do celular marcava 19 horas, sem luz o que fazer? Vagueou pelos cômodos da casa silenciosa a procura de algo que o entretece. A bateria do notebook durou apenas uma hora, deixando o filme que assistia pela metade (Os amantes do circulo polar). A bateria do celular estava no fim, ele apenas ligava de tempos em tempos para ver a hora. Caminhou até a porta, abriu-a e deixou o ar da noite chuvosa entrar. Ficou um tempo a observar as formigas que subiam pelo cabo da televisão e da internet.

Nesse momento de distração o sopro dela entrou. Percorre-os. Percorrer a vela, o lápis e o papel. Assim ele ficou: com uma vela acessa a sua frente, um lápis em sua mão e seu pequeno caderno sob a mesa. Não sabia como percorrer. Se ela tivesse dito como fazê-lo.

Meditou sobre a vela, sobre a luz que ilumina e viaja tão rápido, mais rápido que o vento. Lembrou-se de sua infância, das muitas velas que iluminaram a casa onde passará sua adolescência – uma cidade do interior onde a luz elétrica não havia chegado. Deixou a memória aberta as imagens: músicas, filmes, sensações, o rosto dela iluminado por uma vela. Fazia pouco tempo que tinha visto aquela imagem: ela e a vela. Fazia pouco tempo que o lápis percorria páginas e páginas falando sobre a paixão intempestiva de um menino do catagiro e a menina do botão. Para a luz e para o vento isso era apenas milésimos de segundo, mas para ele era muito tempo.

Na mente mil e uma idéias para filmes, documentários, músicas, livros, mas o papel em sua frente continuava branco como a neve. O papel aceita tudo o que se escreve nele, como o corpo aceita o toque com desejos de paixão. Pensando no corpo dela percorreu a folha com o lápis, assim como suas mãos percorreram o corpo dela.

Toque. Rápido. Lento. Carinhoso. Desejoso. Amoroso. Com tesão. Com surpresa. Descobrindo e mapeando. Tecendo e cosendo novidades. A pela macia das coxas. As mãos que acariciavam o corpo como um jardineiro acaricia a terra preparando o jardim de flores amarelas e laranjas. Um jardim de prazer.

Umbigo. Seios. Bunda. Braços. Cabelos. Rosto. Cada toque repassado vagarosamente na folha, construindo uma gramática corporal, uma linguagem entre mãos e corpo, a cartografia corporal deles. Toque. Lábios. Sabor que encanta e canta. Que vicia. A língua que percorre o corpo como as mãos, sentindo o gosto doce do desejo. Se detêm aqui e acolá – nos seios fonte de ternura, amor e paixão – nas mãos que acariciam o corpo alheio. A língua, as mãos traçam caminhos corporais, como o lápis cria linhas por onde passa.

Corpo território sagrado. Papel palavra que se encarna no corpo – corpo encarnado de poesia, de amores, de utopia, emanações do corpo vibrátil, de bonitezas de um jardim colorido, do devir de um novo amanhecer. Amanhecer na cartografia corporal, nos beijos e suspiros de paixão – os olhos cansados que não se fecham - a vela em sua frente dança construindo figuras no papel agora rabiscado e colorido.

A vela chega ao final lentamente e o papel – jardim colorido dos desejos – tessitura/tecitura única: paixão e toque – sabor e vento – flores e suor – beijos e palavras- suspiros e abraços. O papel antes branco agora vive com memórias do menino dos botões e da menina do cataventos.

O lápis adormece ao lado da folha reinventada moldados pela luz fraca da vela que se apaga lentamente dando seus últimos beijos no colorido do jardim dos amantes, dando passagem aos afetos.

P.S: Depois de devorar – ou ter sido devorado, por estas palavras chega em minhas mãos e ao meu corpo um livro – há tempos esquecido na prateleira e ainda não lido completamente – da Suely Rolnik “Cartografia Sentimental”, ao ler me deparo com o conceito de Cartógrafo Antropófago, onde o mesmo da língua para afetos que pedem passagem.

“Como toda cartografia, ela foi se fazendo ao mesmo tempo que certos afetos foram sendo revisitados (ou visitados pela primeira vez) e que um território foi se compondo para eles...” (Do livro)

Elisandro Rodrigues

05 Outubro 2009

Me vestindo com cores e músicas

(Imagem de Andre Neves - http://confabulandoimagens.blogspot.com)

Olho para fora pela janela de minha alma. Vejo os jardins e as árvores floridas. Melodias e vozes saem dos botões de flor ao se abrirem. O mundo é uma melodia harmônica. O vento tece teias ligando notas e arranjos num ser intempestivo. A maioria das notas se perdem aos ouvidos humanos, o ar é poluído por sons de carros, de gente falando, de músicas e sons produzidos por batidas e pisares. O som do mundo, da natureza se junta ao som produzido pelos homens e mulheres no seu dia a dia. É preciso escutar com outros olhos, abrir os ouvidos aos sons e o corpo a música.

No pulsar do coração o menino escuta o que se passa lá fora, pela janela entram os sons do cotidiano: um cachorro latindo, passarinhos cantando, uma dona de casa lavando a casa, um carro passando, uma ambulância, o vento nas árvores, as abelhas zunindo, as flores caindo, os passo no chão. Tudo é música ao ouvido. O menino escuta longe. Escuta o mar, escuta a areia, escuta a chuva molhando a terra e as flores se abrindo. Mais longe ainda escuta o coração da menina.

O menino escuta isso por que tem um botão na orelha, e do lado o catavento a girar trás os sons propagados pelo vento. No jardim do menino nenhum som se perde, as melodias e as vozes são captadas pelos quatro buracos do botão, juntas se transformam na música deles – do botão e do catavento, colorindo assim as imagens e os movimentos antes cinzas de um mundo que não ouve com os olhos.

O vento leva as bolhas de sabão abrindo as flores ao passar e regando as sementes no chão. No intempestivo que vem um devir de boniteza se espalha pelo mundo fazendo sorrir um menino com um botão e uma menina com um catavento.

Elisandro Rodrigues