


Iniciei esse texto escrevendo dentro do ônibus, aproveitando à longa jornada no caos que é o trânsito de São Paulo. Termino-o agora à noite.
Ao voltar e reler o texto, e começar a modificá-lo me lembrei das palavras de Bérgson sobre a inventividade que devemos ter. [Des](Re)Construir o tempo foi o que os atores, diretor e equipe que construíram a peça “O capitão e a Sereia”, a Trupe Clowns de Shakespeare, inspirado na obra de André Neves;
Ao sair da peça iniciei a escrever e a pensar e logo me lembrei da mensagem de André Neves dizendo que “ficou guardado muita felicidade e quando fecho os olhos parece que estou assistindo”. Levei no meu corpo e nas minhas memórias as imagens de um espetáculo que vez olhar mais, de escutar com outros olhos.
É difícil traduzir com palavras o que foi vivenciada no espetáculo “O Capitão e a Sereia” uma proposta desafiadora eu diria. Desafiador, encantador e que joga o público para dentro do espetáculo, para dentro da história. Durante o espetáculo muitas coisas me chamaram a atenção, desde o momento inicial até o final. A afetividade, a relação da trupe com o público antes do espetáculo, no espetáculo e depois dele.
Me senti acolhido por todos e todas. Na ida para o teatro lia Neil Gaiman que dizia que "histórias são, de um modo ou de outro, espelhos. Nós a usamos para explicar como funciona ou não o mundo ..." com certeza a proposta da trupe de romper fronteiras do teatro, da estética, trazendo para junto do palco um pouco da realidade, das angústia, dos medos, dos sonhos, da vida num mundo cheio de cartografias e de ondas que nos carregam para mar adentro.
A idéia cons(des)truída e as várias narrativas dentro do espetáculo instigavam ao público uma reflexão, instigavam a se jogar dentro do mar, ficar “úmido” de história e a se perder junto com o Capitão Marinho.
No livro de André Neves Marinho é um contador de histórias, mas na peça, ele não se faz presente na narrativa se faz essência e presença nos atores e no público. Contadores de histórias esplendidos os atores nos conduziram por caminhos secos e molhados. Suas falas traziam poesias, encantos, cantos de sereias que entram em nossos ouvidos e corações. São músicas "bonitinhas" (como diziam os atores) que nos remetem a imaginários e fantasias.
A peça é uma história contada com vida, com imagens e com realidade (não entro no mérito de falar do figurino, da cenografia, da iluminação, das músicas não sou qualificado para isso mas todos os elementos se compõe como a água salgada do mar). Tudo é feito com vida. Tudo é feito com paixão e nos faz mergulhar de olhos fechados na tecetura de uma mar “úmido” de um teatro vivo e que vive dentro de nós.
Silenciar com a música e fechar os olhos na escuridão pensando nos mares existentes em nós. Os adultos deveriam assistir a essa peça é deixarem se cativar por histórias contadas com o corpo e os sentimentos. Precisamos mais desse resgate, precisamos jogar o anzol e trazer das profundezas do mar alguns sentimentos afundados, trazer a coragem de ousar de construir e de contar histórias com palavras, imagens, sons e com o corpo.
Sai da peça com a certeza de que é urgente semearmos e plantarmos a imaginação. Fiquei muito feliz ao ser presenteado no final do espetáculo a observar os desenhos originais do livro do André Neves (fotos ilustrando esse texto).
Agradeço a Trupe Tropega, Mas não Escorrega, ao André Neves, aos atores do Clowns de Shakespeare (Camille, César, Marco e Renata) a experiência que me proporcionaram nessa tarde quente de sexta feira longe de casa assim como o Marinho ficou por tanto tempo. Tempo para reinvenção, para criação, para imaginação.
Elisandro Rodrigues



